CHAMADA PARA CONTRIBUIÇOES AO DOSSIÊ (Nº 51): A escola pública do século XXI: mutações no projeto educativo da escola média/ secundária na América Latina
A Revista Española de Educación Comparada (REEC), informa o início da chamada para contribuições ao dossiê (número 51): A escola pública do século XXI: mutações no projeto educativo da escola média/ secundária na América Latina, coordenado pela Dra. Nora Krawczyk (Faculdade de Educação – Unicamp - Brasil) e pelo Dr. Altair Alberto Fávero (Universidade de Passo Fundo (UPF) – Brasil. O propósito é contribuir com o debate com a publicação de artigos críticos que analisem de uma perspectiva teórica e com pesquisas empíricas os avanços e retrocessos da democratização da escola pública no capitalismo contemporâneo.
O desenvolvimento do ensino médio/secundário contém uma historicidade marcada pelas contradições entre democracia e capitalismo. Assim, ao longo do século XX às dinâmicas de inclusão se contrapõem o surgimento de novas formas de exclusão. É principalmente por esta razão que hoje o ensino médio/secundário está entre os principais temas de debate, tanto na Europa como na América Latina. Os problemas e os desafios têm muitos pontos em comum, até mesmo entre países com importantes diferenças nas raízes históricas de seus sistemas educacionais. (Krawczyk, 2003; 2014)
A compreensão aprofundada das transformações pelos quais passa o ensino médio/secundário na América Latina, identificando padrões regionais e especificidades nacionais, é imperativa para pensar políticas educacionais que respondam às demandas contemporâneas de formação das juventudes e da economia e, ao mesmo tempo, alertar sobre riscos e oportunidades na construção de projetos educativos democráticos e inclusivos.
América Latina é uma região bastante diversa e heterógena, com historicidades no seu desenvolvimento educacionais particulares, mas ao mesmo tempo compartilham desafios comuns ainda não plenamente equacionados, entre os quais se destaca a universalização do ensino médio associada à garantia de uma formação crítica como instrumento de emancipação humana e transformação democrática da sociedade. Apesar de compartilharem desafios comuns, os países latino-americanos apresentam trajetórias diversas na condução do Ensino Médio no século XXI (Krawczyk; Vieira, 2012; Tiramonti, 2014)
No entanto, nas últimas décadas, observa-se a intensificação de tendências globalizantes no campo educacional com forte impacto no Ensino Médio, fortemente impulsionadas por organismos internacionais, com destaque para a OCDE, que direciona e busca padronizar políticas educacionais de países com trajetórias históricas e sistemas educacionais bastante distintos, assumindo um papel semelhante ao de um “ministério global” (Costa, Akkari, Souza, 2024. Pg.2)
Esses processos de reforma, em muitos casos, sob uma racionalidade neoliberal envolvem novas formas de governança que se expressam na reformulação dos processos de regulação educacional, com importante intervenção do setor empresarial, que se evidenciam em mudanças curriculares, reorganização da gestão institucional e novos modelos de avaliação numa perspectiva produtivista de qualidade da educação, com forte pressão por competitividade nos sistemas educativos e integração às demandas do mercado global (Krawczyk, 2014; Akkari, Fávero, Consaltér, 2022). No limiar do século XXI, observa-se a incorporação de uma nova dimensão ao campo educacional: a intensificação dos processos de mercantilização da educação, que passam a tensionar os projetos educativos a partir da crescente influência dos interesses corporativos, especialmente das empresas de tecnologia no contexto da economia global (Quadros; Krawczyk, 2021; Morozov, 2018; Saura; Lima; Arguelho, 2025).
O avanço dessas tendências levanta questões centrais sobre igualdade de oportunidades, acesso universal, igualdade e o papel do Estado na garantia do direito à educação (Krawczyk; Quadros; Silva, 2025).
Compreender comparativamente essas influências é crucial para revelar como os discursos e dispositivos trazidos pelos organismos internacionais têm sido apropriados, contestados ou adaptados nos contextos nacionais e subnacionais.
Considerar a globalização de forma rigorosa requer analisar as múltiplas trajetórias das políticas educacionais globais, atentando para os contextos específicos e para a atuação dos diferentes atores políticos na mediação ou transformação dessas políticas e na expressão de seus interesses na governança da educação (Verger, 2019).
Sem dúvida, nos diferentes países, tais reformas não podem ser vistas de forma isolada, pois estão inseridas em contextos sociais, políticos e econômicos em constante transformação. São impulsionadas por desafios como: mudanças demográficas promovidas pelas mutações do capitalismo, críticas às formas tradicionais de ensino e aprendizagem, pressões por maior empregabilidade e formação técnica, demandas por equidade e inclusão social, aumento da pobreza nos grandes centros urbanos, demandas de novos perfis de trabalhadores em função dos avanços tecnológicos, forte presença dos setores empresariais na indução da agenda educacional, dentre outros.
A publicação deste dossiê, com estudos nos diferentes países latino-americanos, permitirá análises comparadas que poderão revelar como diferentes países da região lidam com essas pressões, as escolhas educacionais que emergem de diferentes contextos sociais, culturais e econômicos e seus efeitos na escola pública, especialmente para grupos historicamente marginalizados. Enriquecerá o debate teórico e poderá oferecer evidências empíricas para formulação de políticas educativas mais justas, contextualizadas e democráticas. Entender essas reformas em perspectiva histórica e comparada permite identificar padrões comuns, diversidades e trajetórias específicas de cada país no Ensino Médio do século XXI.
Compreender as mutações do Ensino Médio na América Latina é uma necessidade epistemológica e política. Essa investigação permite compreender as profundas transformações que moldam a educação das juventudes, revelar efeitos de influências transnacionais e identificar caminhos para promover escolas mais inclusivas, igualitárias e capazes de responder aos desafios do século XXI.
- Diante do exposto, apresentam-se algumas sugestões para o monográfico número 5 e ressaltamos a importância dos achados de pesquisa:
- Que políticas tem focado o desafio de expansão e universalização do ensino médio e como têm sido avaliadas?
- Como se expressa nas políticas de ensino médio e educação das juventudes nos diferentes países a racionalidade neoliberal, o crescimento da financeirização e a diminuição dos direitos sociais?
- Em que áreas da política de ensino médio nacional tem maior influencia os organismos internacionais e/ou as corporações empresariais, de que maneira e quais são as consequências?
- Quais são os princípios, pressupostos e políticas para a formação das juventudes nos diversos países da América Latina e quais são os desafios e riscos para o cumprimento do direito à educação?
- Em que medida e de que forma as políticas de avaliação de larga escala influenciam a formação dos estudantes do Ensino Médio?
- Como influência o contexto político, econômico e/ou cultural nos perfis e mutações do Ensino Médio nos distintos países da América Latina?
- Que mudanças nas formas de regulação das trajetórias acadêmicas dos estudantes de ensino médio têm sido implementadas e o que dizem as pesquisas?
- Que relação entre educação e trabalho está presente nas políticas educacionais do ensino médio e com as transformações no mundo do trabalho?
- Que implicações na formação dos estudantes de ensino médio dos distintos países tem o denominado capitalismo de plataforma?
- Que implicações tem na gestão escolar, nos currículos e no processo de ensino-aprendizagem a presencia do processo chamado por alguns autores do capitalismo de plataforma?
Referências:
Akkari, A., Fávero, A. A., & Consaltér, E. (2022). A necessidade de repensar a pesquisa sobre privatização da educação: Uma abordagem a partir do conceito de indefinição das fronterias entre público e privado. Currículo Sem Fronteiras, 22, 1-27.
Ball, S. J., & Youdell, D. (2008). Hidden privatisation in public education. Education International.
Consaltér, E., Fávero, A. A., & Tonieto, C. (2021). O gerencialismo empresarial na escola pública: eficácia ou proselitismo? Revista Educativa, 24, 1-12.
Costa, A. S. F., Akkari, A., & Souza, J. de. (2024). Apresentação do dossiê: Internacionalização da educação: tendências globais e desafios nacionais. Revista Educação e Políticas em Debate, 13(2), 1-13.
Fávero, A. A., Pires, D. de O., & Consaltér, E. (2020). Escola conveniada ou charter school? Uma abordagem sobre termo de colaboração entre prefeitura e o terceiro setor para oferta da educação básica em Porto Alegre. Revista Espaço Pedagógico, 27(1).
Fávero, A. A., Tonieto, C., & Consaltér, E. (2023). O neoliberalismo pedagógico na educação: o gerencialismo educativo em detrimento à humanização. En L. C. Bombassaro & P. C. Nodari (Orgs.), Humanidade - futuro em comum (1.ª ed., pp. 335-353). Editora Fundação Fênix.
Krawczyk, N. (2003). A escola média: um espaço sem consenso. Cadernos de Pesquisa, (120).
Krawczyk, N. (2014). Ensino médio: empresários dão as cartas na escola pública. Educação & Sociedade, 35(126), 21-41.
Krawczyk, N. (2014). Introdução: Conhecimento crítico e política educacional: um diálogo difícil, mas necessário. En N. Krawczyk (Org.), Sociologia do Ensino Médio: Crítica ao economicismo na política educacional. Cortez Editora.
Krawczyk, N., Quadros, S. F. de, & Silva, R. S. (2025). Impactos da terceirização na educação profissional de nível médio: uma análise do caso paulista. En L. Bordignon et al. (Orgs.), Políticas educacionais no contexto neoliberal. EDIUPF.
Krawczyk, N., & Vieira, V. L. (2012). Uma perspectiva histórico-sociológica da Reforma Educacional na América Latina: Argentina, Brasil, Chile e México nos anos 1990. Liberlivro.
Morozov, E. (2018). Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política. Ubu.
Quadros, S. F. de, & Krawczyk, N. (2021). O capital vai ao ensino médio: uma análise da reforma no processo de circulação do capital. Revista HISTEDB On-line, 21, 1-22.
Saura, G., Lima, P., & Arguelho, M. (2024). Imaginarios sociotécnicos en educación: inteligencia artificial y transformación digital. Journal of Supranational Policies of Education, (20), 11-30.
Tiramonti, G. (2014). A escola moderna: Restrições e potencialidades frente às exigências da contemporaneidade. En N. Krawczyk (Org.), Sociologia do Ensino Médio: Crítica ao economicismo na política educacional. Cortez Editora.
Verger, A. (2019). A política educacional global: conceitos e marcos teóricos chave. Práxis Educativa, 14(1), 9-33.
Calendário de Submissão:
Prazo máximo para submissão de artigos: 15 de julho de 2026.
Publicação do dossiê: janeiro de 2027.





