Estudios e investigaciones

Os constrangimentos dos professores do ensino superior presencial em relação à adoção do ensino online

The constraints of face-to-face higher education teachers about the adoption of online leaRNING

Domingos Martinho 1
Instituto Superior de Gestão e Administração, Brasil
Idalina Jorge 2
Universidade de Lisboa, Portugal

Os constrangimentos dos professores do ensino superior presencial em relação à adoção do ensino online

RIED. Revista Iberoamericana de Educación a Distancia, vol. 19, núm. 1, 2016

Asociación Iberoamericana de Educación Superior a Distancia

Recepción: 03 Febrero 2015

Aprobación: 23 Marzo 2015

Como referenciar este artigo: Martinho, D., y Jorge, I. (2016). Os constrangimentos dos professores do ensino superior presencial em relação à adoção do ensino online. RIED. Revista Iberoamericana de Educación a Distancia, 19(1), 161-182. doi: http://dx.doi.org/10.5944/ried.19.1.13996

Resumo: As instituições de ensino superior portuguesas têm necessidade de diversificar a sua oferta formativa de modo a adequá-la aos novos públicos para os quais as formas de ensino e de aprendizagem que incluam ensino online são cada vez mais aliciantes. Apesar desta necessidade, não existem muitos estudos que analisem a forma como os professores encaram a adoção de formas de ensino e de aprendizagem que incluam o ensino online. O estudo realizado através da investigação por questionário em 11 instituições de ensino superior privado português, pretendeu identificar os constrangimentos dos professores do ensino superior presencial em relação à adoção do ensino online e o impacto dessa adoção no seu desenvolvimento profissional. Os resultados revelam que o aumento do tempo que dedicam às atividades letivas constitui o maior constrangimento referido pelos professores em relação à adoção do ensino online. A análise fatorial exploratória identificou seis dimensões relacionadas com os constrangimentos dos professores: aumento do trabalho letivo; apoio institucional; reconhecimento social do ensino online; disponibilidade pessoal e apoio interpares; interação online; problemas relacionados com direitos de autor. Os professores manifestam pouca receptividade e um preconceito elevado em relação ao ensino online, verificando-se que, na sua maioria, apresentam reticências em relação à sua adoção e ao impacto que a mesma pode ter no seu desenvolvimento profissional. A criação de estratégias motivacionais orientadas para a melhoria das competências tecnológicas e pedagógicas pode ajudar os professores a envolverem-se em formas de ensino e aprendizagem que incluam o ensino online.

Palavras-chave: Ensino online, Ensino superior, Professores, TIC.

Abstract: Portuguese higher education institutions need to diversify their educational offer in order to adapt it to new audiences for which the forms of teaching and learning including online education are increasingly attractive. However there are few studies related to how teachers perceive the adoption of forms of teaching and learning that include online teaching. In this study, conducted by research by questionnaire in 11 Portuguese private higher education institutions, we sought to identify the constraints of higher education teachers regarding adoption of online learning. The results show that increasing the time they have to devote to teaching activities is the main constraint reported by teachers in relation to the adoption of online learning. Exploratory factor analysis identified six dimensions related to the constraints of teachers: increased academic work; institutional support; social recognition of online learning; staff availability and peer support; online interaction; problems related to copyright. Teachers experience little receptivity and a high prejudice towards online education, and, the most part, has reservations about the impact that it can have on their professional development. The creation of motivational strategies for the improvement of the technological and pedagogical skills can help teachers engage in forms of distribution that include online teaching.

Keywords: Higher education, ICT, E-learning, Teachers.

A adesão dos professores do ensino presencial ao ensino online provoca mudanças significativas na sua atividade, confrontando-os com a necessidade de desenvolver novas competências, repensar a pedagogia, redefinir os objetivos de aprendizagem e os papeis que desempenham (Garrison, 2011; Palloff & Pratt, 2011). Os estudos sobre esta temática revelam que, de forma geral, existe alguma relutância dos professores do ensino superior em aderir a este tipo de mudanças (Herman, 2013). Esta posição é provocada pela falta de motivação e pela frustração decorrentes de vários obstáculos que podemos sintetizar do seguinte modo: falta de prontidão tecnológica e consequente atitude face à tecnologia (Palloff & Pratt, 2011; Rienties, Brouwer, & Lygo-Baker, 2013); estilo de ensino desadequado (Selim, 2007); ausência de incentivos organizacionais que compensem o trabalho extra (Herman, 2013; Mallinson & Krull, 2013); a ideia ainda existente em muitos professores de que o ensino online não se compara ao ensino presencial, evidenciando preconceitos relacionados com o menor valor do ensino online (Allen & Seaman, 2011; Herman, 2013; Johnson, Stewart, & Bachman, 2013; Palloff & Pratt, 2011).

O nível de prontidão tecnológica dos professores afeta a utilização efetiva das tecnologias, elemento essencial para o suporte do ensino online, constituindo um problema crítico, e, em muitos casos, inibidor, da adoção do ensino online (Palloff & Pratt, 2011; Rienties et al., 2013) que pode ser ultrapassado através da realização de cursos de formação que prepare os professores para o uso das tecnologias, em geral, e, em particular, para a utilização de ambientes de aprendizagem online (Oncu & Cakir, 2010).

Brás e Miranda (2013) lembram que se os professores desenvolverem uma atitude positiva em relação à tecnologia tendem a integrá-la nas suas práticas docentes, pelo que as instituições que pretendem promover a utilização da tecnologia pelos seus professores devem criar uma cultura que reconheça e premeie esse investimento (Akroyd, Patton, & Bracken, 2013).

Existem atitudes perante o ensino em geral que se revelam mais adequadas à aquisição de competências para o ensino online. Nesse contexto, a interação professor-professor assume especial relevância e dá um contributo positivo, uma vez que é através dela que o professor tem a possibilidade de interagir com os seus pares de modo a obter mais-valias no seu processo de autoformação (Anderson, 2008). Os professores assumem que a sua prontidão tecnológica está diretamente relacionada com a maior ou menor disponibilidade para utilizar o ensino online, reconhecendo ainda que a reduzida literacia informática constitui um problema para a adoção de modalidades de ensino online (Gomes, Coutinho, Guimarães, Casa-Nova, & Caires, 2011). Apesar disso, reconhecem que a utilização de ferramentas de ensino online constitui um elemento facilitador para a realização das tarefas docentes.

Ao contrário da opinião dos gestores responsáveis pelas instituições de ensino superior (IES), que reagem muitas vezes com espanto, a perceção dos professores que iniciam a sua atividade de ensino online, indica que essa atividade lhes exige mais tempo do que o ensino presencial (Bolliger & Wasilik, 2009; Cook, K., Crawford, & Warner, 2009; Herman, 2013; Ouellett, 2010; Santilli & Beck, 2005; Tanner, Noser, & Totaro, 2009; Worley & Tesdell, 2009; Vord & Pogue, 2012).

No que se refere à menoridade do exercício das funções docentes relacionando-as com o ensino online, existem estudos oscilando entre dois extremos. Alguns professores consideram que os seus empregos podem estar ameaçados pela existência do ensino online (Santilli & Beck, 2005) revelando, implicitamente, com esta posição um preconceito fortíssimo ao não considerarem sequer a atividade de ensino online como sendo atividade docente. Segundo Allen e Seaman (2011), só cerca de 32% dos professores do ensino superior atribui o mesmo valor e legitimidade ao ensino online, quando comparado com o ensino presencial, verificando-se um ligeiro aumento desde 2002, altura em que se situava em 27,6%. O reconhecimento do ensino online não é uniforme entre os professores dos vários subsistemas de ensino, situando-se em 34% nos professores do ensino público, 20% nos professores do ensino privado sem fins lucrativos, e em cerca de 50% nos professores do ensino privado com fins lucrativos (Allen & Seaman, 2011).

Verifica-se, assim, que muitos professores revelam preconceitos em reconhecer valor ao ensino online, o que constitui uma barreira ao desenvolvimento e expansão desta forma de ensino e aprendizagem (Herman, 2013). A opinião dos professores sobre o ensino online depende da sua experiência e envolvimento com estas formas de ensino e aprendizagem, pois “a maioria com a experiência de ensino online percebe que é igual ou mais eficaz do que o ensino presencial” (Herman, 2013, p. 399). Os professores que nunca tiveram contacto com o ensino online são aqueles que menos consideram esta modalidade de ensino, tendendo a apresentar maior resistência em envolver-se em cursos online (Appana, 2008).

Metodologia

Questões de Investigação

As questões de investigação para que se pretendeu encontrar respostas são as seguintes:

Participantes

No estudo participaram professores que lecionam no regime de ensino presencial em 11 IES privadas portuguesas. A participação foi voluntária e os participantes foram previamente informados sobre os objetivos do estudo, cujo trabalho de campo foi desenvolvido durante o primeiro trimestre de 2013.

Instrumentação

Para obter respostas para as questões de investigação, construiu-se um questionário, cuja primeira secção carateriza os respondentes (habilitações académicas, número de anos de docência de ensino superior, idade, género) (Goldsmith, Snider, & Hamm, 2010). A segunda secção identifica os constrangimentos dos professores para adotar estratégias de ensino com componente online (N=19) (Cook, K., Crawford, & Warner, 2009). Na terceira secção regista-se a atitude dos professores em relação ao ensino online (Calvin & Freeburg, 2010; Goldsmith et al., 2010). Na quarta secção caraterizam-se as competências tecnológicas dos respondentes (Calvin & Freeburg, 2010).

Na segunda secção adota-se uma escala do tipo Likert, em que cada item é avaliado num grau de concordância de 1 a 4 (1 - Discordo totalmente; 2 - Discordo em parte; 3 - Concordo em parte; 4 - Concordo totalmente), mantendo a simetria entre os pontos 1 e 4 da escala nos dois grupos de perguntas. A utilização de uma escala de 4 pontos baseia-se na ideia de que, tratando-se de uma avaliação subjetiva, a exatidão da medida não iria sair beneficiada pela introdução de um intervalo de 5 itens na escala, pois existia o risco de ocorrer o efeito de tendência central (Foddy, 1996).

Na terceira secção adota-se, também, uma escala do tipo Likert, desta vez composta por 5 itens (1 - Inferior; 2 - Por vezes inferior; 3 - Sem diferenças significativas; 4 - Por vezes superior; 5 - Superior). Neste caso, opta-se por um intervalo de 5 itens em virtude de, apesar do risco da tendência central, se considerar que devia ser dada a oportunidade aos respondentes de optarem pelo item “sem diferenças significativas”.

Por último, na quarta secção adotou-se uma escala de Likert de 4 itens (1 - nenhuma; 2 - até 3 anos; 3 - de 3 a 6 anos; 4 - mais de 6 anos).

RESULTADOS

Foram recolhidas 289 questionários com respostas válidas correspondendo a uma taxa de participação de 32% do número total dos potenciais respondentes (N=900) que foram analisadas com recurso ao software SPSS.

Caraterização dos participantes no estudo

A maioria dos participantes no estudo são homens (56,90%), enquanto 43,10% são mulheres. Na distribuição pelos diferentes escalões etários, predomina o escalão dos 30 aos 39 anos de idade (37,59%), seguindo-se o escalão dos 50 anos ou mais (28,28%). Nas habilitações académicas regista-se uma maior percentagem de mestres (39,31%), seguindo-se os doutores (34,83%). No que se refere aos anos de docência, verifica-se uma distribuição relativamente uniforme entre os quatro grupos com ligeira predominância dos respondentes com 10 a 19 anos de docência (28,97%) (gráfico 1).

Gráfico 1. Caracterização dos participantes no estudo
Caracterização dos participantes no estudo

Fatores que inibem os professores de adotar o ensino online

Os fatores que mais inibem os professores de adotar o ensino online estão relacionados com o aumento do tempo dedicado às atividades letivas (3,04), seguido da perceção de que o ensino online torna o contacto com os estudantes mais impessoal (3,01) e a falta de treino/formação proporcionado pela instituição (2,94). Surgem, imediatamente a seguir, por ordem de importância, a ideia de que a escola não suporta as despesas relacionadas com a formação e os materiais necessários (2,82), bem como o trabalho realizado no ensino online não é reconhecido para efeito de progressão na carreira (2,76).

Nos aspetos menos valorizados, destacam-se: não encontro utilidade pedagógica do ensino online (1,79), os problemas relacionados com o direito de autor (1,80), a gestão do tempo (2,03) e a qualidade dos estudantes não permite adotar o ensino online (2,07) (tabela 1).

Tabela 1. Constrangimentos ao adotar o ensino online
Constrangimentos ao adotar o ensino online

Atitude dos professores em relação ao ensino online

Os professores demonstram pouca disponibilidade para adotar o ensino online (2,28), consideram o ensino online de menor qualidade do que o ensino presencial (2,12) e revelam menos gosto pelo ensino online quando comparado como o ensino presencial (1,99) (tabela 2).

Tabela 2. Atitude em relação ao ensino online
Atitude em relação ao ensino online

Experiência tecnológica dos professores

Com a finalidade de verificar se todos os itens utilizados se organizavam em torno da mesma dimensão, aplicou-se a análise fatorial exploratória, tendo-se concluindo que a experiência tecnológica dos professores se estrutura em torno de duas componentes: (1) Experiência tecnológica base associada à utilização do processador de texto, correio eletrónico e motores de busca; (2) Experiência tecnológica avançada, associada à utilização de outro tipo de tecnologias.

Experiência tecnológica base

A experiência tecnológica base carateriza-se por médias muito homogéneas, tendo-se registado as médias de 3,07 na utilização do processador de texto, 3,05 na utilização do correio eletrónico e 3,01 na utilização de motores de busca (tabela 3).

Tabela 3. Experiência tecnológica base
Experiência tecnológica base

Experiência tecnológica avançada

A experiência tecnológica avançada é mais reduzida do que a competência tecnológica básica. Destaca-se o valor mais elevado na experiência de utilização de ferramentas de comunicação eletrónica com média de 2,57, seguido da experiência de acesso a cursos online com 2,56. Os aspetos em que os docentes revelam menos experiência estão relacionados com as estratégias de ensino com componente online (2.08) e a utilização de ambientes de aprendizagem online (1.90) (tabela 4).

Tabela 4. Experiência tecnológica avançada
Experiência tecnológica avançada

Análise da relação entre as variáveis demográficas e as variáveis compostas

Na tabela 5 apresentam-se os resultados da relação entre as variáveis demográficas e as variáveis: Atitude, ExpTecBase e ExpTecAv, tendo-se chegado às seguintes conclusões:

Tabela 5. Relação entre as variáveis demográficas e as variáveis compostas
Relação entre as variáveis demográficas e as variáveis compostas

A análise da relação entre o Escalão etário e a Atitude revela que os docentes do escalão etário “20 a 29 anos” são os que apresentam a média mais baixa (130,33), enquanto no extremo oposto surgem os docentes do escalão etário “40 a 49 anos” com a média mais elevada (172,85). No que se refere às Habilitações académicas verifica-se que o grupo “outro” tem experiência tecnológica base (ExpTecBase) mais elevada (média 173,69), enquanto os restantes grupos apresentam médias muito próximas (licenciatura – 144,76, mestrado – 143,95 e doutoramento – 144,07).

Análise da correlação entre as variáveis compostas

Na tabela 6 apresentam-se os resultados da avaliação da correlação entre as variáveis: Atitude, ExpTecBase e ExpTecAv, concluindo-se que existe correlação, com significado estatístico, entre as variáveis Atitude e ExpTecAv.

Tabela 6. Correlação entre as variáveis compostas
Correlação entre as variáveis compostas
* Correlation is significant at the 0.05 level (2-tailed).

Os fatores de constrangimento dos professores para adotar o ensino online

O número relativamente elevado de variáveis (itens) utilizadas para caraterizar os constrangimentos dos professores (k=17) levou a utilizar a análise fatorial com o objetivo de “explicar a correlação entre variáveis, observáveis, simplificando os dados através da redução do número de variáveis necessárias para os descrever” (Pestana & Gageiro, 2008, p. 489). De acordo com Marôco (2011), o procedimento estatístico de análise fatorial assume explicitamente que as variáveis medidas são quantitativas. Neste estudo, as variáveis utilizadas eram qualitativas, provenientes da aplicação de uma escala ordinal com itens do tipo Likert com quatro pontos, pelo que, tal como preconiza Marôco (2011), em vez de se utilizarem as variáveis originais, utilizaramse as suas ordens obtidas através da transformação dessas variáveis.

A obtenção do modelo de análise fatorial

Na primeira especificação do teste de análise fatorial, obteve-se KMO=0,818 (KMO> 0.800) com sig=0,000, concluindo-se que existiam boas condições para a aplicação deste tipo de análise ( Marôco, 2011).

A análise da matriz anti-imagem (tabela 7) mostra a existência de valores elevados na diagonal inferior e baixos fora dela (MSA> =0,735). A variância total explicada é de 62,649% o que constitui um valor aceitável. A matriz das comunalidades revela a existência de duas variáveis S2.11 (Não opto pelo ensino online devido aos problemas relacionados com as leis do direito de autor) e S2.17 (O ensino online torna o contacto com os estudantes mais impessoal) com valores inferiores a KMOi <0,50, sugerindo um reduzido poder de explicação dessas variáveis (Marôco, 2011).

Tabela 7. Matriz anti-imagem
Matriz anti-imagem

Constatou-se a existência de duas variáveis com reduzido poder explicativo do modelo pelo que se procedeu a nova especificação do teste de análise fatorial, forçando a extração de seis fatores, incluindo-se na solução os fatores que explicam pelo menos 5% da variância total (Marôco, 2011). A matriz das comunalidades apresenta valores individuais elevados para cada variável (KMOi> 0,50), sugerindo que todas as variáveis têm poder de explicação considerável em relação aos seis fatores. O gráfico scree plot confirma a opção pelos seis fatores, apresentando a inflexão da reta entre o sexto e o sétimo componentes (gráfico 2).

Gráfico 2. Screen plot (2ª especificação)
Scree plot (2ª especificação)

A percentagem total da variância explicada pelos seis fatores aumentou, em relação aos cinco fatores, situando-se em 68,177% (tabela 8).

Tabela 8. Variância total explicada
Variância total explicada

Por último, avaliou-se a qualidade do ajustamento do modelo aos dados. A análise da matriz de correlações revela a existência de 56 resíduos (41%) com valor absoluto superior a 0,05.

Nos testes à qualidade do ajustamento, registraram-se os seguintes valores: GFI=0,945 (GFI> 0,900), AGFI=0,938 (AGFI> 0,900) e RMSR=0,003 (RMSE <0,05) (Marôco, 2011). A conjugação da percentagem de resíduos com os valores obtidos nos testes leva a concluir que o modelo apresenta uma boa qualidade de ajustamento aos dados.

Identificação e interpretação dos fatores obtidos

Aplicou-se a rotação ortogonal varimax ao modelo inicial verificando-se que todas as variáveis, com exceção de S2.12 (A qualidade dos estudantes não me permite adotar o ensino online), são claramente identificadas com um dos fatores, apresentando valores de correlação (loadings) superiores a 0,50 (tabela 9). A variável S2.12 não é muito importante para a interpretação do modelo, pelo que não foi considerada no modelo final (Pestana & Gageiro, 2008).

Tabela 9. Matriz das componentes rodadas (varimax)
Matriz das componentes rodadas (varimax)

Na atribuição dos nomes a cada um dos fatores, considerou-se a síntese do conteúdo das variáveis que os constituem e o peso de cada uma, tendo-se optado por determinar o peso do item através da distribuição de frequências que permite localizar a maior concentração da distribuição (Pestana & Gageiro, 2008). De forma prática, obtiveram-se estes valores através da soma das percentagens obtidas para os itens “concordo em parte” e “concordo totalmente” determinando-se dessa forma o seu grau de importância para o fator.

Na tabela 10, apresenta-se a síntese da distribuição de frequências para cada um dos fatores analisados:

Tabela 10. Distribuição de frequências para cada fator
Distribuição de frequências para cada fator

Os fatores 5 e 6 incluem apenas um item cada, pelo que as respectivas designações são as que resultam das respectivas variáveis S2.11 (Não opto pelo ensino online devido aos problemas relacionados com as leis do direito de autor) e S2.1 (A adoção de ensino online implica um aumento das horas que dedico às atividades letivas), respectivamente:

DISCUSSÃO dos resultados

A adesão e a participação dos professores do ensino presencial em estratégias de ensino-aprendizagem que envolvam a utilização de ensino online é muito condicionada pelos obstáculos e receios que esses professores revelam em relação à adoção dessas metodologias de ensino (Herman, 2013). A investigação publicada mostra que essa relutância está relacionada com a falta de motivação, frequentemente associada à falta de prontidão tecnológica e consequente atitude face à tecnologia; à perceção de que o ensino online requer a necessidade de trabalho extra que não é compensado pelas instituições (Herman, 2013; Mallinson & Krull, 2013);. Acresce ainda que uma parte significativa dos professores têm um preconceito elevado em relação ao ensino online, considerando que se trata de uma tarefa menor que não é comparável ao ensino presencial (Palloff & Pratt, 2011; Rienties, Brouwer, & Lygo-Baker, 2013).

Os resultados deste estudo mostram que, a exemplo do verificado em outros estudos, (Bolliger & Wasilik, 2009; Cook et al., 2009; Herman, 2013; Ouellett, 2010; Santilli & Beck, 2005; Tanner et al., 2009; Worley & Tesdell, 2009; Vord & Pogue, 2012) o aumento do tempo dedicado às atividades letivas constitui o maior constrangimento apontado pelos professores para adotarem o ensino online. Os professores, embora possuam pouca experiência sobre a utilização do ensino online, estão conscientes de que a sua adoção os vai obrigar a trabalhar mais. Apesar de se tratar de um resultado baseado na perceção, e não na medição objetiva do tempo dedicado às atividades letivas, os resultados são confirmados por outros estudos onde, invariavelmente, se conclui que o ensino online aumenta o volume de trabalho do professor ( Worley & Tesdell, 2009; Vord & Pogue, 2012).

A afirmação de que o ensino online “torna o contacto com os estudantes mais impessoal”, constitui também um item muito valorizado pelos professores (Gomes et al., 2011), remetendo para a necessidade de formação específica que lhes permita o domínio das metodologias e estratégias pedagógicas, adequadas ao seu envolvimento neste tipo de atividades.

A falta de formação proporcionada pelas instituições, que a manter-se, impossibilitará os professores de melhorarem a sua prontidão tecnológica, surge também, tal como em outros estudos (Alvarez, Guasch, & Espasa, 2009; Rienties et al., 2013), como um dos fatores mais valorizados pelos professores.

O item “a escola não suportar despesas relacionadas com a formação e materiais necessários”, é muito valorizado pelos professores. Esta posição está em concordância com estudos que destacam a importância dos apoios a conceder aos docentes para que estes se envolvam neste tipo de iniciativas (Fish & Wickersham, 2009; Mallinson & Krull, 2013).

As perceções de que “o trabalho realizado não é valorizado para efeito de promoção/progressão na carreira” e de que “não existe reconhecimento pelo desenvolvimento deste tipo de iniciativas” surgem também em evidência nos resultados obtidos. Os resultados não permitem concluir que, tal como referem Santilli e Beck (2005), os professores consideram que o seu emprego pode estar ameaçado pela existência do ensino online, mas deixam perceber que não parecem muito entusiasmados com as consequências que a adoção de formas e ensino e aprendizagem que envolvam ensino online possa ter nas suas carreiras.

O contributo do desempenho pedagógico, bastante menos valorizado na progressão na carreira do que o desempenho na investigação, pode ser um fator que não motiva os professores a envolverem-se em estratégias de ensino que implicam a necessidade de assumirem papeis diferentes dos que desempenham no ensino presencial (Palloff & Pratt, 2011), constituindo uma barreira ao desenvolvimento de ofertas de ensino online.

A reduzida valorização atribuída à afirmação de que “o trabalho relacionado com o ensino online não é reconhecido nem compensado financeiramente” sugere que os professores não consideram a compensação pelo trabalho extra um aspecto crítico para a decisão de adotarem o ensino online ( Cook et al., 2009).

Ao contrário das conclusões de outros estudos (Gomes et al., 2011), onde a utilidade pedagógica do ensino online é apontada como uma das razões que leva os professores a não optarem por esta forma de ensino e aprendizagem, o item “não encontro utilidade pedagógica para o uso do ensino online” é o menos valorizado. Os professores atribuem, também, pouca importância à “qualidade dos estudantes”.

Constata-se uma atitude de pouca receptividade e um preconceito elevado em relação à utilização de estratégias e metodologias de ensino online. Estes resultados são semelhantes aos apresentados por Allen e Seaman (2011) onde são identificadas as dúvidas dos professores sobre o valor e legitimidade do ensino online. O facto de se tratar de professores do ensino presencial, constitui uma atenuante para este resultado, pois, tratando-se de professores que, maioritariamente, nunca tiveram contacto com ensino online, fazem parte do grupo que coloca maior resistência em relação a esta forma de ensino e aprendizagem ( Appana, 2008).

Nem todos os professores manifestam a mesma atitude em relação ao ensino online. Tal como haviam concluído Tanner et al. (2009), os professores mais velhos (40 a 49 anos) revelam uma atitude mais positiva do que os mais novos em relação a esta forma de ensino e aprendizagem. A explicação para este resultado poderá estar relacionada com a maior experiência tecnológica desses professores.

O teste de correlação mostra uma relação com significado estatístico entre a atitude dos professores e as competências tecnológicas, sustentando a possibilidade dessa atitude, mais positiva em relação ao ensino online, estar relacionada com o facto de se sentirem mais confortáveis com a utilização das tecnologias.

Detectou-se um padrão que não foi registrado em outros estudos, em que a experiência tecnológica dos professores se estrutura em dois níveis: (1) Experiência tecnológica base; e (2) Experiência tecnológica avançada. Apesar de esta organização não surgir evidenciada na literatura, verifica-se que existe concordância com os resultados apresentados em outros estudos (Liaw, Huang, & Chen, 2007; Selim, 2007), uma vez que as médias dos itens agrupados na experiência tecnológica base são, normalmente, mais elevadas que as médias dos itens agrupados na experiência tecnológica avançada.

De maneira geral, os inquiridos possuem reduzidas competências tecnológicas, nas quais a capacidade para utilizar o processador de texto e o correio eletrónico emergem como as mais desenvolvidas (Liaw et al., 2007), seguindo-se a utilização de motores de busca (Selim, 2007). Verifica-se ainda que, no seu conjunto, os professores possuem uma reduzida experiência tecnológica avançada. Neste aspecto, destacam-se, pela negativa (níveis muito reduzidos), a utilização de ambientes de aprendizagem online e as estratégias de ensino com componente online.

As resistências dos docentes a envolverem-se em iniciativas que incluam ensino online e a relação destas resistências com as suas competências tecnológicas, leva a considerar que o investimento na melhoria das competências tecnológicas poderá contribuir para atenuar essas reticências.

Os resultados da análise fatorial aos 17 itens apresentados no questionário, identificando seis dimensões, são coerentes com a maioria dos estudos publicados onde, com maior ou menor evidência, são referidas como aspectos a ter em conta para o sucesso das iniciativas de ensino online.

Confirma-se que a dimensão “aumento do trabalho letivo” constitui o fator mais consensual entre os docentes para não adotarem o ensino online.

O “apoio institucional” é uma dimensão decisiva no momento de desenvolver estratégias conducentes à adoção do ensino online (Mallinson & Krull, 2013; McCarthy & Samors, Online Learning as a Strategic Asset, 2009). O apoio institucional pode concretizar-se através de muitos aspectos nomeadamente, apoio financeiro para o desenvolvimento das competências necessárias ao ensino online (Herman, 2013), reconhecimento pelo trabalho desenvolvido (Meyer, 2012), ou numa fase mais adiantada do processo pode estar relacionado com os vários aspectos do suporte online.

O constrangimento relacionado com o “reconhecimento social do ensino online” surge como uma consequência natural dos preconceitos e das dúvidas que os professores revelam em relação a esta forma de ensino e aprendizagem ( Allen & Seaman, 2011). De facto são facilmente apontadas razões para que os professores não se envolvam no esforço de adoção de soluções inovadoras de ensino, tais como: a excessiva valorização da tecnologia em detrimento do papel do professor (tal como o entendem), a pouca relevância de investirem no ensino online, a falta de apoio para o desenvolvimento de materiais ou a ausência de formação.

A “disponibilidade pessoal e o apoio interpares”, evidencia a importância da vontade individual dos professores em se envolverem em atividades de ensino online e da motivação, ou constrangimento, associados à postura dos restantes professores em relação a este assunto. Esta dimensão evidencia que a motivação dos docentes para o esforço de melhoria do ensino depende deles próprios, por questões de ética e brio profissional. No entanto, tal como referem Palloff e Pratt (2011), a maior ou menor disponibilidade para se envolverem e/ou colaborarem no ensino online é afetada, positiva ou negativamente, pelo apoio e aceitação que recebem por parte dos restantes professores, não devendo ser menosprezado o contributo da liderança mais próxima.

No que diz respeito à “interação online” é uma das dimensões associadas à adoção do ensino online, geralmente identificada como uma desvantagem, quando se compara o ensino online com o ensino presencial (Meyer, 2012).

Por último, surge a dimensão “problemas relacionados com os direitos de autor”. Esta dimensão, identificada na maioria dos trabalhos publicados sobre esta problemática, assume particular relevância num contexto de ensino online.

CONCLUSÕES

A atitude dos professores do ensino presencial em relação ao ensino online constitui um ponto prévio que pode condicionar toda a estratégia pessoal e institucional para a adoção do ensino online, devendo por isso merecer a maior atenção por parte das IES que pretendam desenvolver ofertas formativas diversificadas, contemplando a utilização do ensino online (McCarthy & Samors, Online Learning as a Strategic Asset, 2009).

O desenvolvimento de ações de formação relacionadas com a utilização da tecnologia e, sobretudo, formação pedagógica que habilite os professores a ensinar utilizando as metodologias de ensino e aprendizagem mais adequadas ao ensino online, constituem um aspecto a ter em conta pelas IES que desejem criar as condições necessárias para a adoção com sucesso do ensino online (Allen & Seaman, 2011; Gomes et al., 2011; Oncu & Cakir, 2010). As criações de laboratórios de e-learning têm-se revelado uma opção organizativa seguida em muitas IES com a finalidade de desenvolver as competências dos docentes para a utilização das TIC e, de forma específica, as competências relacionadas com a utilização de metodologias adequadas ao ensino online.

Para além das medidas concretas com reflexo direto no desenvolvimento profissional e na carreira docente, as IES devem preocupar-se em melhorar a eficácia da comunicação de modo a aumentar o grau de adesão dos professores (McCarthy & Samors, Online Learning as a Strategic Asset, 2009). Com essa finalidade McCarthy e Samors (2009) referem que a importância da mensagem “interpares”, sugerindo que as IES se apoiem em docentes, preferencialmente, com experiência de ensino online, que possam ajudar a passar a “mensagem” sobre o papel e impacto da sua adoção.

Referências bibliográficas

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Notas de autor

1 Domingos Martinho: Licenciado em Informática de Gestão pelo ISLA Santarém; Mestre em Informática pela Universidade de Lisboa; Doutor na Especialidade de Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação pelo Instituto da Educação da Universidade de Lisboa. Investigador da I2ES do ISLA Santarém.
E-mail: domingos.martinho@unisla.pt
2 Idalina Jorge: Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Mestre em Educação - Ensino a Distância, Universidade Católica Portuguesa; Doutora em Educação - Enino a Distância, Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. Investigadora no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Grupo de Investigação: Educação, Tecnologia e Sociedade.iijorge@ie.ulisboa.pt